07 février 2010

AUTOBIOGRAFIA DE ROSA LOBATO FARIA

Recebi este artigo por email e fiquei encantada com as palavras da Rosa Lobato Faria.
Perdemos uma grande Senhora.
Repouse em paz, Rosa.  Não serás esquecida, nunca.

foto internet
 
(in Jornal de letras)
"Morreu Rosa Lobato Faria

A escritora, letrista e actriz Rosa Lobato Faria, morreu hoje, dia 2, aos 77 anos, depois de uma semana de internamento num hospital privado. Foi colaboradora (dizendo poesias) de David Mourão-Ferreira em programas literários da televisão. Autora, entre outros, dos romances Flor do Sal, A Trança de Inês, Romance de Cordélia, O Prenúncio das Águas, ou mais recentemente A Estrela de Gonçalo Enes (ed. Quasi). Publicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL há dois anos.

Autobiografia

Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância. Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual, política e pedofilia. Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam. A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve. Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos. Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas. Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo. Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.

Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.
Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.

E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa da aurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas. E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis. Aos treze fui, interna, para o Colégio. Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias. Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão de baile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.

Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.

Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.

Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chave na porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca, vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadora do que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).

Mas o que sabíamos nós da vida real? Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse. Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido). Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos. Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez. Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim. E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres). Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos. Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos. Mas não interessa quem fez o quê. É preciso é que tenha sido feito. E que seja feito. E eu fiz tudo, quando ainda não era suposto. Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.

Depois foram as circunstâncias da vida. A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa. Tudo muito bom. Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada. Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.

Pois é. Eu achava, pobre de mim, que era poetisa. Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde. A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras. Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias. E de repente, aos 63 anos, renasci. Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis. (Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).

Isto da idade também tem a sua graça. Por fora, realmente, nota-se muito. Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem. Quando estou em processo criativo sinto-me bonita. É como se tivesse luzinhas na cabeça. Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens. Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião. É um progresso enorme.

Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30, comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc. Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra). Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores. Adoro actores. Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.

Que mais? Ah, as cantigas. Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu. Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma alma e é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria. Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal. Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga. Irrelevante.

Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas para contar. Mas não conto. Primeiro, porque não quero. Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance."

19 commentaires:

Osvaldo a dit…

Verdinha;

Com a partida de Rosa Lobato Faria, Portugal ficou mais pobre, não só porque perdeu uma grande escritora, uma escritora que nos fazia reler sua literatura única, mas também porque perdeu uma das suas grandes (e belas) mulheres, daquelas que são importantes e todos nós sabemos o quão importante é o papel da mulher para o bem estar da familia, da sociedade e do país.
Com a partida da Rosa Lobato faria, também a humanidade ficou mais pobre mas fica-nos o consolo de guardar-mos a sua obra,... e que Obra.

bjs e abraços ao Léo,
d'Ana et Osvaldo

bono_poetry a dit…

E bela a vida,nao e?ela soube disso!

Espaço do João a dit…

A vida é bela mas... tudo tem um limite. Chegou a sua vêz. A nossa também lá chegará.

Falando de flores, podes estar descançada que logo ue haja mais abundândia terás alguma. Promessa de JOÃO.

Maria a dit…

Querida Verdinha, obrigada.
A autobiografia da Rosinha, em parte, é a autobiografia de muitas mulheres. Claro que, dada a superioridade dela, nem tudo será igual.
Fiquei triste com a morte da Rosinha. Conhecia-a desde o tempo dos programas literários da RTP.
Tenho todos os livros dela, alguns excepcionais, por isso já não posso ler mais nenhum. Mas vou relê-los todos. Terei sempre na memória, aqueles olhos maravilhosos, aquele ar de Senhora de outrora, mas com um espírito bem avançado.
Adeus Rosinha, até sempre nos teus livros e na minha lembrança.
Beijinho, Verdinha querida.
Maria

Conceição a dit…

Achei muito interessantes as palavras aqui publicadas, fazem-nos recuar no tempo e ver como as coisas mudaram tanto em tão pouco tempo, como a infância agora é vivida de forma tão diferente, o texto deixou-me com saudades desse tempo onde a maldade não fazia parte do vocabulário.
A Rosa soube expressar isso na perfeição...
Beijinho

João Norte a dit…

Olá Verdinha.
Obrigado pela visita ao intro.vertido. Também eu teria muito para dizer se tivesse coragem e paciência para escrever a minha biografia, até as minhas memórias. Em muitos aspectos se compara com as da Roas Lobato (menos importante claro) mas com uma grande diferença, eu tive uma infância pobre, nascido e criado numa aldeia entre analfabetos. Na juventude caí de "chofre" na sociedade e na política, corri riscos, lutei pela liberdade,acreditei que um o meu país seria diferente onde a verdade reinaria. E é por isso que a minha desilusão é maior.

Marta Vinhais a dit…

Un texte parfait qui dit tout...
Comme elle dit, le problème de l'âge n'est pas l'extérieur et l'intérieur de Rosa Lobato Faria est une petite merveille.

MERCI PAR LA VISITE

Bisous
Marta

São a dit…

Espero que Rosa esteja em paz.
Tenho uma boa impressão dela, acho que envelheceu serenamente...isso é importante, principalmente neste tempos em que a juventude e a magreza são (quase) obrigatórias.


Fiquei tristinha com a tua dúvida sobre a São a quem o nosso amável João ofereceu aquele deslumbramento de flor:c´est moi!

rrss

Espero ver-te muitas vezes no meus espaços. `tá?

Uma feliz semana.

São a dit…

A correr venho dizer-te sinceramente que não fiquei aborrecida, pelo amor de Deus.

E, já agora,: como é que se faz aquela ligação directa que deixaste no comentário?! É que eu já tentei e não sou capaz de fazer funcionar a ligação...

Se calhar o João está também sem saber como.


Espero de coração as meçhoras da tua colina. linda-

Um caloroso abraço para ti.

São a dit…

Minha VErdinha, obrigada pela informação: irei tentar, a ver se consigo. Porque até dá muito jeito em situações como foi esta do João.

Para tentar não ter os blogues muito pesados , abri um só para as prendas e desafios : " Compagnon-de-Route".

No "são" tenho poucas coisas na barra lateral, embora me apeteça. por vezes, ter lá mais, rrss

No "SÃO" não há mesmo nada lateralmente.

Creio que quanto mais fotos e algo desse género se tem, mais custa a abrir.

É por isso que eu só coloco , quando o faço, uma ilusração. Exceptuando casos de reportagens sobre viagens, claro.


Espero ter retribuído a ajuda.

Bem hajas, zogia.

Kim a dit…

Gostei imenso!
Sabes Verdinha, acho que a Rosinha quis dizer aquilo que todas as mulheres querem dizer.
Vai directa ao assunto sem meias palavras.
Li recentemente que ela dizia às filhas para nunca casarem sem terem ido primeiro para a cama com os namorados. A partir daí logo saberiam se eram os parceiros sonhados. É que tudo se resolve na cama.
Grande senhora e ... linda!
Beijinho grande
(por isso é que eu não durmo no sofá. Depois não resolvia nada.)

Anonyme a dit…

Verdinha!

Quando se fala em "MULHER", vem logo atrás a palavra perfume, flor, beleza e perfeição.
Rosa Lobato Faria, foi uma "Flor(Rosa) Mulher" sem espinhos, distribuindo perfume e beleza ao seu redor e mudando vidas por sua existência. Embelezou ambientes, encarnou vários personagens, ofereceu sonhos, fez de vidas frágeis histórias maravilhosas e experiencias extraordinárias.
Foi Simplesmente a ROSA MULHER.

Uma rosa é sempre bela, não importa em qual jardim floresça, onde quer que ela esteja vão florir outras rosas, apenas a cor altera.
Beijos duplos
L&L

silvi a dit…

Tenho pena que tenha partido,uma alma tão grande , e uma escritora fantastica, vou recordar sempre a figura (personagem da novela Vila Faia) em que ela entrou, foi lindo, mas Portugal, perdeu uma grande mulher, mas ficou a sua obra para mais tarde recordar, silvi.

mixtu a dit…

nunca li rosa,
conhecia-a da televisão e por isso talvez tenha havido um preconceito da minha parte...

abrazo serrano...

Bichodeconta a dit…

Hello ami, peut de vert ? Je ne sais pas le nom de mes amis... Je suis sans filet et uniquement quand je je quitte un saut vers un espace cyber, mais uniquement pour voir le courrier et maintenant elle envoyer un hug du groupe des amis qui manque je sens...Pour elle un baiser dans l'espoir que nous pouvons retrouver nous bientôt, ell
...Perdão pelos erros..

PS:Em paz esteja essa grande senhora da nossa cultura.Rosa Lobato Faria(Rosinha) tinha nos olhos o brilho dos campos verdes mesclados de malmequerese madresilvas.A voz com que declamava poesia, a graciosidade com que se apresentava, no corpo dela morava a poesia..

Luna a dit…

Como dizes perdemos uma grande senhora, mas vai ficar junto de nós na sua obra
beijinhos

myra a dit…

bom dia, sou Myra landau

www.myra-parole.blogspot.com
e vim aqui atraves de Brancamar,
e gostei como voce escreve, e a pessoa que é.
Eh, oui meme a mon age, 83 ans, la vie est encore belle....
vou ver o resto de teu blog, et puis j'éspère que tu viendras jeter un coup d'oeil chez moi , cela me fera un grand plaisir, salut

Laura a dit…

O tempo que demorei a abrir o teu blogue e chegar aqui, basta veres a hora da minha resposta ao teu comentário e esta...e ja vês o tempo bem cronometrado..beijinos

Laura a dit…

Não tinha visto este post, foi pena, mas comento agora.
Rosa Lobato faria, uma grande sSenhora, uma Linda e Bela pessoa, e um belissima mulher, pouco ou quase nada li sobre ela a não ser entrevistas e noticias, e sim, actriz, Escritora Poetisa, um pouco de tudo. Lendo o Kim, fiquei a saber que penso como ela no que respeita ao casamento e digo isso mesmo à minha filha, dorme aqui, dorme ali e vê onde dormes melhor e o resto é treta! Conselho que nunca aproveitei para mim, porque a nossa cultura dizia que era pecado!...
Beijinhos verdinhos..laura